GEOGRAFIA DAS COLONIAS ESPIRITUAIS - I

Yvonne A. Pereira, Memórias de um Suicida.
  
O Além-túmulo acha-se longe de ser a abstração que na Terra se supõe”, (...) ele é, antes, simplesmente a Vida Real, e o que encontramos ao penetrar suas regiões é Vida! Vida intensa a se desdobrar em modalidades infinitas de expressão, sabiamente dividida em continentes e falanges como a Terra o é em nações e raças; dispondo de organizações sociais e educativas”.

Vale dos Suicidas:


O “presídio de que vos desejo dar contas”. Configurado no “mundo Invisível, cujo desolador panorama era composto por vales profundos, a que as sombras presidiam: gargantas sinuosas e cavernas sinistras”. Onde “o solo, coberto de matérias enegrecidas e fétidas, lembrando a fuligem, era imundo, pastoso, escorregadio, repugnante! O ar pesadíssimo, asfixiante, gelado, enoitado por vulcões ameaçadores como se eternas tempestades rugissem em torno”. Portanto, “na caverna onde (...) não há céu, não há luz, não há sol, não há perfume. (...) O que há é o choro convulso e inconsolável dos condenados que nunca se harmonizam. (...) O ‘ranger de dentes nas trevas exteriores’ de um presídio criado pelo crime, voltado ao martírio e consagrado à emenda! É o inferno, na mais hedionda e dramática exposição. (...) A fome, a sede, o frio enregelador, a fadiga, a insônia; exigências físicas martirizantes, (...) a promiscuidade, (...) tempestades constantes, inundações, a lama, o fétido, as sombras perenes”. Não era possível distinguir entre o dia ou à noite, “porque sombras perenes rodeavam as horas”.

A geografia deste presidio (Colônia Espiritual) constitui-se de “gargantas, vielas e becos, (...) cavernas, sempre cavernas (todas numeradas), longos espaços pantanosos, lagos lodosos circulados de muralhas abruptas, levantadas em pedra e ferro. (...) Era um labirinto onde se perdiam sem poder jamais alcançar o fim. As cavernas serviam de domicílio”. Assim, a impressão era estar “encarcerados no subsolo, em presídio cavado no seio da Terra, (...) em algum vulcão extinto, como pareciam atestar aqueles imensuráveis poços de lama com paredes escalavradas lembrando minerais pesados. Quem ali temporariamente estaciona (...) é a escória do mundo espiritual (...) provindas, preferentemente, de Portugal, da Espanha, do Brasil e colônias portuguesas da África, infelizes carentes do auxílio confortativo da prece; aqueles levianos e inconsequentes, que, fartos da vida que não quiseram compreender, se aventuraram ao desconhecido, em procura do alivio, pelos despenhadeiros da morte”.

A porta de entrada de tal colônia nos é descrita da seguinte forma. “Era noite, ao dobrar de uma esquina deparei com certa multidão. (...) Tentei recuar, fugir, ocultar-me dela. Porém, (...) misturando-me ao seu todo para absorver-me completamente em suas ondas! Fui levado de roldão, empurrado, arrastado(...) . Apenas me inteirava de um fato, (...) estávamos todos guardados por soldados, os quais nos conduziam. A multidão acabava de ser aprisionada! (...) Dir-se-ia que esquadrão completo de milicianos montados conduzia-nos à prisão. (...) Silenciosos, mudos, eretos, marchavam em suas montadas fechando-nos em círculo intransponível! (...) A caminhada foi longa. Frio cortante enregelava-nos. (...) Tocados vagarosamente, sem que um único monossilabo lográssemos arrancar aos nossos condutores, começamos, finalmente, a caminhar penosamente por um vale profundo. (...) Cavernas surgiram de um lado e outro das ruas que se diriam antes estreitas gargantas entre montanhas abruptas e sombrias”.

A porta de saída se constitui em se desvencilhar dos “fluidos vitais, arrefecidos pela desintegração completa da matéria”, assim permitindo a “locomoção para as camadas do Invisível intermediário, ou de transição”. Este trabalho é realizado por “singular caravana”, que periodicamente “visitava esse antro de sombras. (...) Trajados de branco, apresentavam-se caminhando pelas ruas lamacentas do Vale, de um a um, em coluna rigorosamente disciplinada, enquanto, olhando-os atentamente, distinguiríamos, à altura do peito de todos, pequena cruz azul-celeste, o que parecia ser um emblema, um distintivo. (...) Entravam aqui e ali, pelo interior das cavernas habitadas, examinando seus ocupantes. Curvavam-se, cheios de piedade, junto das sarjetas, levantando aqui e acolá algum desgraçado tombado sob o excesso de sofrimento; retiravam os que apresentassem condições de poderem ser socorridos e colocavam-nos em macas conduzidas por varões (padioleiros) que se diriam serviçais ou aprendizes”. Tal caravana era precedida de “pequeno pelotão de lanceiros, qual batedor de caminhos, ao passo que vários outros milicianos da mesma arma rodeavam os visitadores, como tecendo um cordão de isolamento, o que esclarecia serem estes muito bem guardados contra quaisquer hostilidades que pudessem surgir do exterior” .

O transporte para o resgate nos é apresentado como caravaneiro que, “surgiram (...) rompendo as trevas com poderosos holofotes. Estacionou o trem caravaneiro na praça lamacenta. Desceu um pelotão de lanceiros. Em seguida, damas e cavalheiros, que pareciam enfermeiros”, os moribundos dignos de socorro eram transportados em “macas, cuidadosamente, guardadas pelo cordão de isolamento já referido e abrigadas no interior de grandes veículos à feição de comboios, que acompanhavam a expedição. Esses comboios, (...) lembravam, meio de transporte primitivo, pois se compunham de pequenas diligências atadas uma às outras e (...) eram puxados por formosas parelhas de cavalos também brancos. (...) Eram carros amplos, cômodos confortáveis. (...) Afastava-se o veículo, a cerração de cinzas se ia dissipando aos nossos olhos torturados, durante tantos anos, pela mais cruciante das cegueiras: - a da consciência culpada! Apressava-se a marcha... O nevoeiro de sombras ficava para trás como pesadelo maldito que se extinguisse ao despertar de um sono penoso... Agora as estradas eram amplas e retas, a se perderem de vista... A atmosfera fazia-se branca como neve... Ventos fertilizantes sopravam, alegrando o ar... (...) Nos carros distinguia-se também o mesmo emblema azul-celeste” .


PEREIRA, A. Yvonne. Memórias de um Suicida. 10ª Edição, Ed. da FEB, Rio de Janeiro, 1957.